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Não se mate

sábado, 7 de maio de 2011


Essa é a poesia. Selecionei há tempos, para o dia do meu aniversário. Data despercebida assim, mas bem percebida pelo gauche da vida, para mim. Semana cheia, dias cheios de nada sem tanto. Drummond, é com você, meu caro. O Carlos mais Anderson do mundo, saiba: em relação a você, minhas palavras são as mais descabidas desse planeta mudo.

Carlos, sossegue, o amor
é isso que você está vendo:
hoje beija, amanhã não beija,
depois de amanhã é domingo
e segunda-feira ninguém sabe
o que será.


Inútil você resistir
ou mesmo suicidar-se.
Não se mate, oh não se mate,
reserve-se todo para
as bodas que ninguém sabe
quando virão,
se é que virão.


O amor, Carlos, você é telúrico,
a noite passou em você,
e os reclaques se sublimando,
lá dentro um barulho inefável,
rezas,
vitrolas,
santos que se persignam,
anúncios do melhor sabão,
barulho que ninguém sabe
de quê, praquê.


Entrentanto você caminha
melancólico e vertical.
Você é a palmeira, você é o grito
que ninguém ouviu no teatro
e as luzes todas que se apagam.
O amor no escuro, não, no claro,
é sempre triste meu filho, Carlos,
mas não diga nada a ninguém,
niguém sabe nem saberá.

Ou em algum mundo particular, Anderson,
talvez deva assim te buscar.
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Um homem e seu Carnaval

terça-feira, 8 de março de 2011


Muitos já falaram de carnaval. Vou parafrasear Luiz Melodia, quando escutei sua evocação num antigo disco acústico dos Titãs: "Carnaval, carnaval, carnaval... Eu fico triste quando chega o carnaval."

E sobre carnaval, assim escreveu Drummond, no poema que dá título a esse post.

Deus me abandonou
no meio da orgia
entre uma baiana e uma egípcia.
Estou perdido.
Sem olhos, sem boca
sem dimensões.
As fitas, as cores, os barulhos
passam por mim de raspão.
Pobre poesia.

O pandeiro bate
é dentro do peito
mas ninguém percebe.
Estou lívido, gago.

Eternas namoradas
riem para mim
demonstrando seus corpos,
os dentes.
Impossível perdoá-las,
sequer esquecê-las.

Deus me abandonou 
no meio do rio.
Estou me afogando
peixes sulfúreos
ondas de éter

curvas curvas curvas
bandeiras de préstilos
pneus silenciosos
grandes abraços largos espaços
eternamente.

* A obra acima se chama Carnaval em Madureira (1924), de Tarsila do Amaral.
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Sentimento do mundo

sexta-feira, 19 de novembro de 2010



O terceiro livro de poesia de Drummond, Sentimento do Mundo (1940), mostrou-me um poeta indignado com a capacidade que o homem pode ter em ser tão virulento à humanidade. É o sentimento de "um mundo caduco", do qual Drummond não quer ser poeta deste. Sentimento de guerra, frustração, desilusão... E de tudo o mais que o pessimismo pode gerar ao proprio homem. Drummond assume caráter político. Escancara as facetas do mundo, não esquecendo seu coração. Transcrevo aqui Os Ombros Suportam o Mundo, uma poesia sempre atual, quer seja em tempos de guerra ou não.

Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.

Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.

Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
Teus ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.


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Receita de Ano Novo

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010


Faço minhas as palavras do poeta de Itabira para um novo ano.



Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor de arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação como todo o tempo já vivido
(mal vivido ou talvez sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser,
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?).
Não precisa fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar de arrependido
pelas besteiras consumadas
nem parvamente acreditar
que por decreto da esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.
Para ganhar um ano-novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo de novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.




Desejo um ano de poesia. Vários anos de Drummond.
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Droga de amor

domingo, 31 de maio de 2009



Certo,
Drogas causam dependência
E efeitos adversos.
Apesr disso,
São transcendentais os benefícios.

A cura da doença amor
Tem que ser tratada
Com doses letais
De paixão e cumplicidade,
Com injeções
De atenção e fidelidade,
Com pomadas
De carinho e proximidade,
E, enfim,
Com o elixir da eternidade.

De tudo o que se conhece,
O amor é o maior vício.
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Mártir-me

terça-feira, 26 de maio de 2009



Aniquile-me no tempo
Pra me fazer sofrer
Tanto quanto (ou mais)
Sofreram os mártires
Pra ser mais um exemplo
A uma juventude tenaz,
Mas pobre conceitualmente.
E peco, peso e peço:
Façai de mim alguém
Que luta por causas
Justas e não rotuladas,
Para mudar a mim
Ou a apenas uma
Solitária esperança
Que, devaneiosamente,
Queima-se para o bem
Por viver e ainda vencer
O próprio insano tempo
Que nos deixa pra trás,
Que não faria o que nos faz.
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