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Chico Anysio, mestre do humor

sexta-feira, 23 de março de 2012


Estava voltando hoje da faculdade quando escutei, em meio ao trânsito caótico da avenida Treze de Maio, o nome de Chico Anysio. Vinha de uma tevê, parei e li o rodapé: "Morre o mestre do humor..." Como bairrista, cearense que sou, senti por isso.


Da sua carreira, só peguei a ponta do iceberg da criatividade de Chico. Nas tardes infantes, assistia a Escolinha do Professor Raimundo, merendando Pipofloc's com Cajuína. Eram tardes deliciosas de infância, mesmo sem entender a maioria daquelas piadas prontas ou de segundo sentido. Mas achava engraçado aquele professor de cabelo branco e bigode, uma versão risível e penteada de Einsten que, com voz rouca, falava de salário baixo a cada final de programa. Inteligência crítica aliada ao humor. Coisa de gênio.


Talento é uma coisa rara, veja só. Se naquela época o fim da tarde era preenchido com bom humor, por vários artistas hoje memoráveis, hoje o que temos na grade de programação? Malhação? Ah, vá! Será uma bela recordação para os saudosistas de amanhã. Ironicamente falando, claro.


Ao assistir reportagens especiais do Chico hoje, parando pra ver sua trajetória, senti aquela trava na garganta, e ainda assim soltei risadas engasgadas com alguns de seus momentos. Me emocionei com seu legado. Humorista, ator, dublador, escritor, compositor e pintor. Um cearense, grande por natureza, que fez com seus duzentos e tantos tipos, o que o Ceará tem de melhor: o humor. Apesar de não ir nada muito bem. Aqui no Ceará, não vemos a resolução dos nossos problemas sociais e ganhamos um Acquario em troca disso. Fazemos piada.


Descanse em paz, Chico.


Sim, ele também pintava (Chico Anysio, exposição na LBV).
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Peças da Vida

sábado, 10 de março de 2012


            A vida nos prega peças. Tudo pode acontecer nela. O que idealizamos e nem imaginamos passa por seu crivo. Quem diria que hoje estaríamos do modo que estamos? Quem nos garante que as coisas ao nosso redor não poderiam ter outro sentido? São incessantes os giros da roda viva da vida. Nada fica suspenso.
            As decisões nunca seguem um fluxograma do que esperamos. Há cinco ou dez anos, não imaginaria estar fazendo o que hoje faço. Não imaginaria que as coisas tomassem esse sentido na minha vida em particular e, talvez, na das pessoas que me cercam. Faço essa pergunta a você: imaginaria que as coisas seguem um sentido lógico, que elas estão do modo que esperamos , impassíveis de erro, persistentemente inalteradas? O que você queria há uns anos, tem-se realizado profissionalmente e amorosamente? O que mudou? O que poderia ter mudado? E o melhor: o que poderia ter continuado?
            Nos prega peças, essa vida. Somos jogados num oceano de probabilidades, de desejos, de decisões e indecisões. Mergulhamos num Universo real, que às vezes pode ser surreal e que poderia ser paralelo. Acasos e ocasos. Ocasos e acasos. Não medimos o que aconteceu no passado que nos deu esse presente e não temos controle do futuro.
            Quem diria? Quem diria que hoje você estaria a mais de quinhentos quilômetros de casa? Que seu melhor amigo de infância estaria em outro estado? Que você teria amigos hoje morando no exterior? Que você não acompanharia de perto as mudanças na família? Que um amor que você já teve se esvairia de um modo bobo? Que você se sentiria só e inseguro diante das intolerâncias do mundo? Que você perderia entes queridos precocemente? Que você não ganharia o presente que você sempre quis? Quem diria, enfim, que você estaria hoje como está?
            Mais feliz? Bem! Mais ou menos? Lute!
            Pelo sim pelo não, apesar das peças da vida, das “pedras no caminho” de Drummond, “lute como um bravo”, como já disseram uns roqueiros californianos. Seja transparente nos seus valores, busque o que seu coração pede, sendo você mesmo(a). Lembre-se que um rapaz latino-americano vindo do interior cantou que, apesar de tudo ser proibido, “tudo é divino, tudo é marivilhoso” (ou que podemos contrariar isso) e que um argentino, que foi o cara mais latino-americano de todos, esbravejou que devemos “amadurecer sem perder a ternura”. Jamais.
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Juazeiro do Norte, 100 Anos

sexta-feira, 22 de julho de 2011


Assim começa uma guerra...
Povo nobre e altivo do Crato, peço permissão para falar sobre o povo imundo do Juazeiro, que vive guiado por Satanás.

Essa frase bombástica foi proferida por um vigário pertencente a uma comitiva pastoral que visitava o Crato, pouco antes de Juazeiro do Norte – à época Joaseiro – sagrar-se independente. Foi o marco embrionário para a eterna rixa entre cratenses e juazeirenses.

Sabia-se que o povoado de Juazeiro estava sendo extorquido pelo Crato. Eram pesados os impostos cobrados e o retorno era por demais insuficiente para acompanhar o crescimento vertiginoso de Juazeiro. O embate editorial entre os jornais de Juazeiro – O Rebate – e de Crato – O Correio do Cariri – eram fervorosos. Uma verdadeira convocação para guerra.

Juazeiro estava levantando a bandeira da independência. “Morrer ou vencer pela liberdade de Juazeiro.” Após frustradas tentativas diplomáticas de tornar-se independente do Crato, foi necessário recorrer às preces e à pólvora. O povo de Juazeiro estava armado: rifles, espingarda, cacete, punhal e reza, muita reza. Crato até preparou exército para cobrar os impostos atrasados dos insurgentes. Quando viu a cena de um povo armado até os dentes, arregou. O jeito era fazer um acordo de paz entre Juazeiro e Crato que pusesse fim naquele barril de pólvora. E assim aconteceu: em 22 de julho de 1911, a Lei 1 028 foi aprovada pela Assembleia Legislativa do Ceará e criou a vila autônoma do Juazeiro.

...e o começo de uma nova história
A guerra não acabou por aí e o problema agora se tornou interno. Quem seria o novo prefeito de Juazeiro? A lista era grande e despontavam figuras ilustres: doutor Floro Bartolomeu, padre Alencar Peixoto, major Joaquim Bezerra... A briga foi intensa pela liderança do novo município. 

Contracorrente, o ponto final foi dado pela figura mais ilustre de todo o Ceará. Padre Cícero Romão Batista, o padim Ciço, nomeou-se prefeito da nascente e promissora Juazeiro. Isso provocou a fúria de alguns pretendentes ao cargo e a devoção dos fieis seguidores do santo do sertão.

E já se passaram 100 anos desde então. Juazeiro do Norte guarda outras grandes histórias dignas de memória, estudos e filmes. Uma cidade riquíssima culturalmente e mística por excelência, no berço do Cariri.


Hoje, Juazeiro do Norte é a maior cidade do interior cearense, mesmo tendo um território cinco vezes menor que o do Crato. Tem quase 250 mil habitantes e continuar a crescer vertiginosamente. A árvore que lhe emprestou o nome, Ziziphus juazeiro é tal qual essa cidade centenária: símbolo de resistência (por continuar viçosa mesmo em meio à mais rigorosa seca) e acolhimento (por sua copa frondosa que oferece agradável sombra em meio ao mais tórrido sol). 


Como diz o Hino do Centenário,


"Teu passado, Juazeiro, é glorioso.
Teu presente um pujante florescer
Teu futuro é grandioso
Construído com trabalho e com fé."

Dá-me um orgulho danado ter nascido nessa terra. E ter começado a minha história aí.

Contagem regressiva zerada... O que fazer com a obra mais representativa do centenário de Juazeiro?
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Eu, os cachorros e uma gata

sexta-feira, 10 de junho de 2011



Na infância, naturalmente, simpatizamos com cãezinhos. E isso pode perdurar durante anos. Ou não.

Tenho boas e más recordações de meus bichos de estimação. Tive três cachorros, machos mesmo, porque sempre diziam que criar fêmeas dava um trabalho imenso. Faço uma ressalva afirmando que simpatizo em número e grau com fêmeas, a priori da espécie humana. A espécie feminina é a razão e o prospecto do viver masculino.

Mas vamos falar um pouco dos meus estimes cães e minhas estórias desoladoras precedidas de animadoras vivências. Meu primeiro cachorro se chamou Afi, criativo nome advindo das iniciais dos nomes da minha família. Nome cativante, não? Afi era um cachorro serelepe, tinha cor branca e inconsequentes pintinhas pretas. Não era um dálmata, era mais pra vira-lata mesmo. Sei que tinha um charmoso anel de pêlos pretos circundando seu rabinho sempre indo pra lá e pra cá. Esse meu primeiro animal de estimação me trouxe a alegria de viver em empatia pelos bichos. Morreu precocemente, sufocado em uma garrafa pet de meia banda. Trágico.

Meu segundo cão se chamou Ralph. Era da raça cofap, rebento de uma cadela de um amigo do meu pai. Foi um caso de simpatia. Seu pêlo marrom brilhante e rente possibilitava horas de brincadeiras. É que logo nesse tempo de infância, desenvolvi uma alergia precoce a pêlos de animais, uma típica bronquite juvenil. Ralph era enérgico, desbravador. Quando ele via as portas da casa abertas logo cedo, saia desembestado, sem destino. Um dia, eu indo pra minha escola primária, escutei um grunhido doloroso. Vi um caminhão passando pela rua e, lá atrás, estava Ralph, estendido e imóvel no chão. Estava acordado, ofegante, mas não se levantava. Eu, quando olhei, tive o impulso de pegá-lo em meus braços. Num ato de desespero, Ralph se jogou, tilintando em dor, e abocanhou minha bochecha. Até hoje, essa mordida deixou uma sutil marca próximo ao meu lábio superior. Mal sabia eu, naquele momento, que Ralph tinha sido atropelado pelo caminhão que eu tinha visto momento antes. Não havia sangue nele. Eram seus ossos que estavam bem machucados. Depois dessa, tomei vacina anti-rábica no bumbum. Ralph, meu cão querido, não resistiu, apesar do socorro veterinário.

O terceiro cachorro foi o que durou mais. Chamou-se Lyon, nome pouco criativo, é verdade, porém típico de cão. Já foi em tempos de adolescência. Eu jurei cuidar do cachorro, responsabilizava-me por qualquer um de seus deslizes, incluindo seus incomedidos processos fisiológicos borrões. Lyon era pra ser um Cocker spaniel cor caramelo, mas restou-me um pretinho. Seus pêlos eram negros feito carvão. Decidi que era ele mesmo que eu queria. Foram deliciosos anos. Ele era bastante inteligente. Ninguém acredita, mas eu chegava da escola, deitava no sofá, tirava meu tênis, e Lyon, sorrateiramente, levava meu tênis, um por um, da sala até meu quarto, e colocava o par bem juntinho. Era impossível não amá-lo. Mas eu pequei, eram raras as vezes em que eu o levava pra passear. Ele ficava meio solitário no quintal. Em casa, seus bolos de pêlos eram constantes, levitando no ar e se acomodando nos canteiros do chão. Apesar de cuidados extemporâneos, sofri um duro golpe: minha mãe deu Lyon para uma tia criar, sem aviso prévio para despedida chorosa. Foi um dos duros momentos de amadurecimento pessoal, na minha opinião. Meu único alívio foi imaginar que lá na casa dessa tia existia um campo aberto para ele correr e cadelas de várias raças para ele se divertir. Era um paraíso canino para ele, antes de seus últimos dias terrestres.

Três histórias com desfechos tristes, mas que me renderam amor aos animais. São histórias de vida, também. Por que sabemos bem o que a vida nos reserva em seu ciclo. E, assim, desde cedo, pude aprender.

Tiveram outros cães que me marcaram. Um em especial, de rua mesmo, é memorável. Ele, ou melhor, ela, que era uma cadela chamada Baleia. A personificação ideal e real da "Baleia" em Vidas Secas de Graciliano Ramos. Certas célebres vezes, andei, de madrugada, na retilínea rua São Francisco, em meu Juazeiro, sob luzes alaranjadas de postes. Baleia me acompanhava fielmente. Um assobio fazia-a correr. Era superprotetora na imensidão silenciosa da noite no centro da cidade. Acompanhava-me em cada passo. Se eu desse uma volta correndo no quarteirão, lá estava ela, de língua pra fora - assim como eu, de tão cansado - me acompanhando. Nostalgia marcante dessa época também.

O que me influenciou a contar essa história foi chegar em meu apartamento, ver um bichano da calçada me acompanhar, sentar na escada, e esperar receber carinho de mim. Pouco tempo depois, ronronou. Uma gata, sim, essa histórica inimiga declarada de cães, me fez escrever esse memorando canino. Lembrei nitidamente do quão bom foi minha experiência com cachorros. E, também, o quanto me faz falta ter um aqui, agora, pertinho de mim, cochilando perto de meus pés enquanto escrevo essa estória saudosa. A história de Marley & Eu, em triplicata, perde feio.
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A lei

sexta-feira, 27 de maio de 2011


A lei. O que falar da lei? A definição do dicionário? Tá aí: "Preceito que vem de autoridade soberana de uma dada sociedade". Ou a definição que todos nós temos mas não julgamos, já que a lei é "obrigação imposta" mesmo?

Democracia, ditadura, socialismo, sistemas políticos em geral. Qual a sua moral? Leis? Só isso, leis? Dizem que lei também é para manter a ordem. Ordem essa nunca alcançada, nem de perto, nem em lugar algum. Só em contação de histórias mesmo. Quanto mais leis, mais infrações, óbvio. Quando se chega ao meio-termo, nas decisões sensatas? As leis são tão resolutivas quanto dizer com todas as letras que o mundo vai acabar em 2012. As leis, os códigos, são tão bem arquitetados, que chegamos a um ponto em que estamos tão entregues a ela como um vírus a depender de uma célula para manifestar vida. Irônico, não? Nesse sentido, somos vírus. Parasitas que nem o próprio sistema. Relação ecológica essa digna de estudos aprofundados.

Disse Drummond, em 'Nosso Tempo':

"Este é tempo de partido,
tempo de homens partidos.
(...)
Os homens pedem carne. Fogo. Sapatos.
As leis não bastam. Os lírios não nascem 
da lei. Meu nome é tumulto, e escreve-se
na pedra."

Mas lei deve existir e sempre existiu. E mais: homens são tendenciosos, jogam em benefício, praticam politicalha.

A cada dia, saltam aos olhos notícias de jornal com decisão judicial.

Um caso da terrinha: comerciantes, pais de família, tiveram instrumentos de trabalho confiscados à força policial armada para cumprir ordem do ministério público. Donos de bares e restaurantes, veja só, cometiam crimes com mesas e cadeiras nas calçadas ou nas ruas. Certo que tudo tem que ter ordem e que deve haver limites. Mas precisava arrancar do chão churrasqueiras, botijões de gás, mesas, cadeiras e deixar alguns comerciantes a Deus-dará? Nessa jogada, há os extremos: grandes comerciantes, que seriam minimamente prejudicados; e pequenos comerciantes, dos quais retiraram uma forma de subsistência para a família. O meio-termo foi parar na caixa-prego. Mas como nem toda decisão é 100%, agora vem a parte risível e a justificativa da ação: quem pagar uma taxa em dinheiro, discute-se, pode colocar mesas e cadeiras nas ruas - respeitando os limites estabelecidos - que isso fique bem claro! Seria aqui um exemplo de lei - ou qualquer variante do mesmo tema - para se conseguir chegar aos objetivos específicos: dinheiro. Ou usurpar "legalmente" de quem mal tem. Essa é a estratégia mais formidável de fazer política em benefício de mais poder. Todo esse assunto tem seus dois lados. O que não se pode fazer são ações extremistas e se proceder como tal. E mais: do quê adianta livrar calçadas e ruas, se a acessibilidade de pedestres e, principalmente, de cadeirantes, é tarefa das mais difíceis no primeiro grupo e das mais impossíveis no segundo? Então, que se criem novas leis...


Em suma: as leis mais remotas criaram os mais variados problemas de hoje e, ironicamente, muitas das leis atuais querem contornar tais problemas com medidas descabidas e inconsequentes.

Os exemplos são tantos, em cada minúcia do cotidiano de uma sociedade, que nem vale a pena citar, sob o risco de ficarmos debilmente entediados com o mundo. Sobrevivemos ao viver cumprimos leis e, se não a cumprirmos, somos punidos. Ou não. É clichê dizer "ou não", mas fazer o quê quando tratamos com a questão de seguir leis?
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Superlua

quarta-feira, 23 de março de 2011




A lua do dia 19 de março de 2011 inspirou.  Inspirou muita gente a tecer comentários sobre a lua. Inspirou enamorados a sussurrar palavras de amor ao ouvido. Inspirou jornalistas, astrônomos e curiosos. E, claro, também inspirou poetas de quarto a reescrever num antigo caderno de anotações sentimentais. Foi tudo bem comentado. Há quase 20 anos não acontecia esse tal "perigeu".

Apesar da extrema satisfação de encher os olhos dos observadores com aquela fantástica lua, os astrônomos foram secos em suas constatações: "É um fenômeno rotineiro", "imperceptível a olho nu" e "é uma lua cheia bonita, nada mais". É de deixar qualquer amante da lua inconformado com declarações desse tipo. Apesar disso, afirmavam que o diâmetro da lua teria aspecto 14% maior e brilho 33% mais intenso. Conclusões científicas à parte, foi um deleite ver aquela exuberante lua mais pertinho de nós.

Que bom que a lua vez por outra se mostra em grande estilo aos nossos olhos. A lua quer nos lembrar de sua existência. Quer que inclinemos nossa cabeça aos céus para lhe apreciar. Ela é daquelas que gostam de chamar a atenção de todos com seus atributos que não existem em nenhum outro lugar das galáxias. 

Enfim, atendemos a seu pedido prazeroso de ser atendido. Acho que sua única exigência era para que a observássemos deitados sob seu luar, sentindo sua magia e magnetismo, como que não quiséssemos mais nada naquele noite além dela. Além da lua e de amor.

Precisávamos voltar a ver a lua e as estrelas. Pena que foi preciso os jornais lembrarem desse feitio natural previsto pela ciência. Quem sabe essa lua se parecesse com outras luas cheias corriqueiras. Talvez a gente tenha se surpreendido com essa lua porque pode ter feito muito tempo desde a última vez em que paramos para vê-la, em qualquer uma de suas fases.

A lua, de tão humanizada que é, nos lembrou de sua existência. Como nós, ela pede pra ser vista, tem suas fases e nos faz inspirar. Ela só não morre porque deve ser o único vínculo persistentemente imutável a ser observado por todas as gerações de seres vivos que passam pela Terra. 

Que a Lua, agora com L maiúsculo mesmo, não expire jamais de nossa inspiração.

* O desenho acima é de minha autoria. Tendo a Lua (2010).
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O Facebook, outras redes sociais e uma conspiração

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011




É um defeito meu olhar as instituições pelo lado financeiro e político. E quando isso se mistura, dinheiro e governo - que por sinal rimam bem -, temos algo repugnante. 

Por trás das mais inocentes formas de liberdades de expressão, temos as máscaras sinistras do poder. Sabemos: religião, política, esporte, arte, cultura... até mesmo as inocentes redes sociais. Todas elas têm sua carapuça oculta infame. Essa teoria conspiratória, acredito, deva lá ser verdade.

Ao assistir o genial filme A Rede Social, que mostra a rede de intrigas que envolveu a criação e o desenvolvimento do Facebook, deparamo-nos com essa idéia, de jogo sujo pelo dinheiro e poder. Por trás de cada rosto risonho na tela do perfil, que são centenas de milhões, há bilhões em dinheiro. Emprestamos nossa mútua colaboração às redes sociais sem pedir nada além de seu serviço grátis. Grátis, em parte. Um dia, quem sabe, descobriremos o preço.

Não pedimos nada, mas eles ganham muito. Só colecionamos amigos. Eles colecionam fortuna. Colecionam também, você sabe, aqueles trilhões de fotos que são postadas em álbuns. É uma privacidade escancarada. Uma liberdade de expressão ilusória. Mas e daí? A gente “curte” isso.

E a amizade hoje em dia, hein? Clique ali em “adicionar aos amigos” e espere a resposta confirmando. Pronto, você tem um novo amigo. Simples, fazer amizade hoje em dia. Mande um recado, comente foto, curta isso e aquilo. Atualize a página. Solicitações de novas amizades. Novos recados. Aniversários próximos. Ah, clique ali também em algum link patrocinado, naquela promoção acolá, no preço! Não esqueça de dizer o que você está pensando agora. Pode ser uma frase pseudo-filosófica ou trecho da letra de uma música de forró de sucesso no momento. 

Tempos modernos, esses.

Não sou contra isso. Até já tentei criar conta no Facebook. Desisti. Já tive conta no Orkut. No Twitter ainda tenho. Mas não quero encher a boca e dizer que não sou um dos mais de meio bilhão de pessoas com perfil que curtem alguma coisa qualquer de lá. Não vale a pena, presumo. É só por uma coisa, e vou te contar: sou saudosista.

O Facebook chegou a preparar pra mim uma lista enorme de pessoas que há anos não via. Incrível. Quisera eu vê-los pessoalmente, ao acaso, espontaneamente, e não assim, de modo forçado. Por ora, prefiro empregar meu tempo em outras coisas. Pode até ser que eu volte a criar uma conta. Agora, não. Quem sabe um dia quando eu me desfizer desse discurso. Discurso esse que pode até ser falso moralista mesmo.

Um problema para quem não está em redes sociais é não consiguir guardar de cor datas de aniversários. Prefiro colocar no calendário. E também, se for pra mandar recado de parabéns, preferiria, mil vezes, mandar ou receber carta. Ou e-mail. É bem mais pessoal que dizer “parabéns @fulanodetal, desejo #muitasfelicidades” ou curtir a mensagem de alguém dizendo “hj eh meu niver!!!”.

Outra coisinha que incomoda é a imagem que cada um monta de si ou a imagem que criamos de alguém. Isso é motivo de uma longa divagação e não vou me permitir a isso.

Ah, tempos modernos... ah, redes sociais! E a gente se torna tão dependente. E as redes sociais também dependem da gente pra crescer, se endinheirar mais. As cartas perfumadas que ficam guardas na gaveta, com outros papeis amarelados pelo tempo, vão voltar? O sentimento pessoal, quem diria, e puxa vida, parece perecer.

Seria um absurdo dizer, enfim, que estas redes sociais estão se apoderando do que há de mais nobre no pensar e no sentir humano? Afinal, as redes sociais arquivam, com nosso termo de consentimento livre e esclarecido, nossos pensamentos, devaneios, arquivos etc. Sabem, tintim por tintim, das ondas de sentimentos que estão predominando em qualquer determinado momento da existência atual.

É um absurdo, então, pensar que estão monopolizando o sentimento humano em kbytes de memória?

Defender esse meu ponto de vista parece ser a luta mais vã.
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Isso é blues

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011




Show descompromissado de blues. Ele só queria conhecer o velho estilo musical que alicerçou o bom rock and roll. O blues. Aquele ritmo alucinante, inspirador. Onde guitarra chora, baixo lamenta, teclado fala, gaita grita e bateria marca o ritmo. É isso, talvez, o blues. A sonoridade mais humana de todas. E se é humana, é sentimental. Expressa angustia, solidão, dor... mas aí vêm os solos pra contradizer isso tudo com um sonoro: “dane-se!”.

Logo na entrada do show, ele a encontrou, mesmo não procurando-a. Aliás, nem passava por sua cabeça encontrá-la lá. Antigo amor. Seria inevitável o olhar recíproco e também estavam tão próximos que foi inevitável até o contato verbal. De surpresa, cumprimentaram-se. Um beijo na face e um abraço nervoso. Foi um segundo, só. Ele sentiu seu cheiro e ela reconheceu o cheiro dele. Seria impossível para ambos esquecer. – Oh... olá! tá curtindo um blues? – ele diz, risonho. – É... legal, né? – ela responde instantaneamente, emendando com uma exclamação: – Meu namorado... ele toca baixo nessa banda. – O tempo para ambos parou. Ela não queria dizer aquilo daquela forma lacônica, muito menos para ele que, suando frio, joelho vacilante, arriscou com um sorriso agora amarelo: – Err, que bom. – Não se sabe o que sucedeu, mas cada um foi pro seu canto, convenhamos. Como assim, "bom"?

Assistir show de blues, só, é o maior significado para solidão. As próprias melodias choram ao invés de você mesmo chorar. Estava tão confuso quanto para ele seria reproduzir solos irreprodutíveis de blues. Pouco interessava perceber a linha de baixo. O baixo, logo aquele baixo, por ironia, lamentava o choro da guitarra, lamentava a fala travada do teclado, lamentava o grito de desespero em vão da gaita e, ainda assim e mais do que nunca, marcava o compasso perfeito com o ritmo da bateria. Lamentava, enfim, seu próprio lamento. Não fora do tom, mas em tom grave.

Isso, sim, é blues. Mas é rock and roll também.

* A imagem acima se chama Le Violon d'Ingres (1924), de Man Ray.
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Dias de criança

terça-feira, 12 de outubro de 2010



Meus dias de criança foram na década de 1990, mas quisera eu ter sido nos anos oitenta. Apesar de ter nascido no final da década de oitenta, me sinto espiritualmente ligado a esse decênio do qual vivi incompletos três anos de idade e, claro, não me dava por gente.

Talvez seja porque eu sou um simples saudosista, ou então seja pela música da época, ou até mesmo pela influencia dos meus irmãos, com seus vídeo games toscos, ou enfim seja mesmo por achar os anos 1980 míticos.

Bem pequeno, eu tinha em mente que o mundo era tão pequenino quanto aquele pátio da escola primária. Mas quando você estudava naquela escola primária, o pátio era imenso e quase todos eram iguais. A diferença minuciosa entre aquelas crianças em recreio no pátio estava no sexo, na cor, nas brincadeiras, na inocência, no relacionamento e, também, na esperteza, pois tinha gente miúda que já naquele tempo conseguia arrebatar lanches de outros infantes a troco de seu superego em formação. Pensava eu, então, que o mundo se resumia naquilo. Depois, aos poucos e cada vez mais, redescobrimos as mazelas do mundo e recorremos à nossa infância para redescobrir o saudosismo daquela época. Vi que tinham crianças que não iam para a escola e se viravam para conseguir comer um lanche, nem que fosse aquela comida que iria apodrecer no lixo.

Apesar do apego aos anos 80, passou-me despercebido que existiam muros concretos entre países, entre pessoas e entre nossas limitações. Hoje, sem dúvida, temos os maiores e quiçá piores muros: os virtuais. E isso é tema pra uma longa conversa de bar.

Tirando toda a ênfase pessimista, embora real, recordo de coisas simples e boas daquela época. Assistia desenhos animados ao sabor de um sanduíche com um copo de leite achocolatado. Gostava das trilhas sonoras dos desenhos, especialmente daquela musiquinha chiclete Get Along Gang em "A Turma do Barulho". Jogava games num velho Atari e depois descobri a instantânea modernidade do Super Nintendo, mas ademais me deparei com um Playstation e vi que aquilo pra mim já era pós-moderno para a minha mentalidade oitentista. Brincava de playmobil, tinha pirocóptero, geléia maluca, jogo de alquimia, trapaceava Jogo da Vida e roubava cédulas no Banco Imobiliário. Furtava também, inocentemente, biscoitos, salgadinhos e refrigerantes no meio da noite no mercadinho de meu pai. Colecionava tazos, bonecos dos Cavaleiros do Zodíaco, maços vazios de cigarro, latinhas de refrigerante, figurinhas e álbuns baratos que ofereciam recompensas ilusórias. Colecionava também Histórias em Quadrinhos, preferencialmente do Homem-Aranha, sendo que muitas das revistinhas eu nem lia, só fazia deixar crescer a coleção mensalmente. Cheguei a desenhar e roteirizar uma HQ sozinho e sonhava que ia ser um best seller mundial a nível de Watchmen. Fui para clubes aquáticos, mas não frequentei aulas de natação. Pelejava em jogar bola e entrava no time como "café-com-leite", ou então ficava no banco de reservas mesmo. Enganchava bolas diversas vezes, inclusive no quintal do muro da vizinha intolerante. Aprontava no colégio e me safava de situações travessas me aproveitando de uma carinha sonsa e inocente. Escutava e sabia de cor as músicas do cd dos Mamonas Assassinas, mesmo sem minha mentalidade inocente perceber suas letras indecentes. Deixava de assistir Chiquititas por pensar que era coisa de menininha, e atualmente tenho certeza que estava certo. Eu me mijava na cama com medo dos filmes do Freddy Krueger decepando seus próprios dedos, e hoje, incrivelmente, pouco me abato com filmes de terror. Comemorei o tetracampeonato mundial da seleção brasileira de futebol, pouco entendendo o que estava se passando naquele momento. Atirei com espingarda de chumbinho em um morcego. Fui flagrado me deixando demorar no banheiro e abria o chuveiro para escorrer a água e pensarem que eu estava tomando banho. Joguei bola na rua com pés descalços e dormi assim, sujinho mesmo. Mais tardiamente, folheava, com o coração a mil, coleções de Playboy antigas guardadas no alto do guarda-roupa. Escutava pagode e substitui esse desgosto musical pelos acordes nervosos do Nirvana e descobri minha fixação ao roquenrou. Tive a fase rebelde, com tênis All Star riscado a caneta com uma frase na lateral branca dizendo "Don't Listen Your Parents, Listen Rock N'Roll". A minha fase de rebeldia foi tão intensa que cheguei a rasgar, com tesoura sem ponta, a rede de descanso do meu irmão depois que discutimos bestices. Bem, aí você sabe, quando vem a rebeldia e os hormônios em fúria, acaba a infância e adeus, dias de criança.

Em meus dias de criança, porém, não aprendi a andar de bicicleta, apesar de ter tido uma com rodinhas empenadas. Esse foi meu muro concreto na infância. Levo isso não como um trauma de infância, mas como um desejo de conseguir realizar esse feito já depois de velho. Quem sabe um dia uma criança me ensine a dar umas pedaladas. Concluo comigo mesmo que aprender com a infância nos faz viver novas e indeléveis experiências, seja cedo ou tarde. E assim podemos derrubar até mesmo nossos atuais muros virtuais.
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Essa nossa politicagem

sábado, 2 de outubro de 2010


Mais uma eleição vem chegando. Não tenho meus candidatos ainda. Aliás, nem vou votar. Não vou exercer meu direito de cidadão. Não que eu não queira, mas é que meu sítio eleitoral está a 560 quilômetros de onde estou agora. Justificarei meu voto. O que não se justifica é essa paspalhice em que se encontra nossa politicagem.

Tinha lá eu meus 17 anos quando votei pela primeira vez. Prefeito e vereador. Na minha cidade natal, predominava a mesma oligarquia de sempre. Sem noção certeira de cidadania e de voto justo, digitei algumas teclas e confirmei. Tinha votado na oposição. Como nas eleições precedentes, os velhos mandantes continuaram no poder, com o mesmo politiquismo de antes. Quatro anos depois, a oposição venceu, enfim, mas com a ajuda de alguns dos mesmos políticos de outrora. Por querer fazer um governo intitulado revolucionário, a nova gestão assustou a nova oposição e a comunidade. Com muito pouco apoio político e social, a prefeitura, que continua desde muito surrada, está perecendo. Os juazeirenses bem sabem: independentemente de quem assuma o poder político na cidade, ela não passa bem, obrigado. Infelizmente, esse é o panorama desolador da politicagem em Juazeiro do Norte, Ceará.

Mas a votação de amanhã, dia 3 de outubro, é para um presidente, uns tantos deputados estaduais e federais e alguns senadores desta republiqueta federativa do Brasil. Talvez por ter tantos candidatos concorrendo ao pleito é que aqui em Fortaleza esteja com suas principais avenidas inundadas pela imundície da panfletagem desregrada. O cruzamento da avenida da Universidade com a 13 de Maio está com um turbilhão de papéis no chão, no ar e nos esgotos. Os políticos, os mesmos que prometem mudanças para vivermos numa cidade sadia, emporcalham nosso lar com seus rostos risonhos e seus números estampados em seus milhares de santinhos de papel.

Para presidente, são quase dez candidatos. Mas, claro, você só escuta falar em Dilma, Serra, Marina e, estourando, Plínio. Se você assistiu à propaganda eleitoral gratuita, que de gratuita não tem nada, viu, ainda, os risíveis Eymael (com seu jingle "Ey-Ey-Eymael, um democrata cristão") e Levy Fidelix (com seu slogan do aerotrem) e os extremistas Zé Maria e Rui Pimenta, pouco lembrados. Os debates dos presidenciáveis foi razoável, sem confronto direto entre os mais votados. Dilma, vassala de Lula, gagueja e diz "eu acho". Serra é o sabichão, o cara de cara limpa e de pau. Marina é a eco-capitalista que tenta rimar desenvolvimento com sustentabilidade. Plínio, enfim, é o bom velhinho, auto-intitulado diferente dos outros três, mas que botou lenha na fogueira dos debates. São essas as opções de voto. A dúvida ainda está cruel? Nessas horas, faz-me falta o saudoso Enéas e sua bomba atômica.

As boas opções não param por aí. Para deputado, seja lá para o que for que sirva, há quem possa votar em Tiririca, Mulher Pêra ou Romário. Pensam, ou realmente têm certeza, que somos abestados por completo.

Para governador do Ceará, temos a provável vitória espetacular de Cid Gomes, acusado de falsas acusações, que se promoveu com maestria por meio de obras que já tinham que ser arquitetadas faz tempo e por meio da polícia destreinada e maquiada do Ronda do Quarteirão. Lembremos: o Ceará é o terceiro estado mais pobre do país e Cid teve um dos maiores gastos em campanha política entre todos os outros candidatos a governador de qualquer outro estado do Brasil. Enquanto isso, a atenção básica à saúde pede esmolas e, ao mesmo tempo, pasmem, projeta-se a construção do maior aquário internacional da América Latina em Fortaleza. Mas, inacreditavelmente, poderia ser pior se Collor fosse cadidato ao governo do estado do Ceará.

Os senadores, sem irem contra a maré, são os de quase sempre. Vou parafrasear o futuro ilustre ex-presidente e quiçá secretário-geral da ONU, nosso Lula, sobre dois candidatos medalhões do Ceará para senador: "Quem votar em um, vota no outro, e quem votar no outro, vota naquele." É como diz aquela censurada música paralâmica, Luís Inácio falou, Luís Inácio avisou... E tudo continua no mesmo excremento de antes.

Como já dizia Humberto Gessinger, líder dos Engenheiros do Hawaii, na sua peculiar linha de baixo e em letras paradoxais emprestadas à história do rock nacional: "Eu presto atenção no que eles dizem, mas eles não dizem nada (...) Toda forma de poder é uma forma de morrer por nada. Toda forma de conduta se transforma numa luta aramada". Enfim: "A história se repete, mas a força deixa a história mal contada."
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No Cariri se fala assim

sábado, 18 de setembro de 2010



É uma tortura para o caririense pronunciar o nome da novela das 7 em terras alencarinas. A telenovela global se chama Ti-ti-ti. Como bom regionalista do Cariri, eu não me rendo à forma chiada de falar dos fortalezenses ou da grande maioria das cidades do Brasil. Quase todo mundo diz, foneticamente, "Tchi-Tchi-Tchi". Os sertanejos falam é "Ti-Ti-Ti" mesmo, sem o som de 'x' ou de 'ch' entre o 't' e o 'i'.
Se me recordo bem, na escola, a professora ensinava as sílabas de uma maneira que deve ser universal no abecedário do português. Aquela simpática "tia", ou melhor, professora, ensinava: “T com A, Tá; T com E, Té; T com I, ; T com O, Tó; T com U, Tú.” Não me recordo dela ensinar o “T com I, Tchí”. Senão essas sílabas seriam, grosso modo, “T com A, Tchá; T com E, Tché; T com I, Tchí...” E por aí vai.
Não sei de onde vem essa forma de pronúncia, mas fico intrigado igualmente com as diferentes formas de se comunicar nesse país. Explica-se, penso, pelo fato deste ser continental e ter extraordinárias diferenças culturais e sociais. Herança, pois, de dominação. Nos telejornais ou nas músicas de alcance nacional, a linguagem é padrão, claro. Mas mesmo assim, apesar de todo o contato com o jeito de falar vendido nas mídias, continuamos a falar do mesmo modo que herdamos do nosso meio, a menos que você queira perder sua identidade natal.
Para dizer alguma coisa, o fortalezense fala: “Dêxa eu tchi djizê, macho”. O caririense da nata diz: “Dêxeu ti dizer, bicho”.
O modo de falar é uma marca constante em cada comunidade. No Cariri, falamos “”, na capital, fala-se “Tchí”. Mudando de lugar, nos pampas se fala “tu queres” e em Pernambuco recriam esse linguajar, mais conciso, apressado e arrastado no emprego do 's'. Cada canto tem a sua gramática. Questão de identidade. É fácil reconhecer esses estereótipos. O cearense, o pernambucano, o carioca, o gaúcho e, claro, o baiano, têm todos uma pronúncia inconfundível. Ainda mais se forem ditas as gírias. Se alguém diz “Égua, macho!”, você já mata de onde é. Se você sabe, é fácil confirmar que o “tri legal” vem de mais longe.
Aqui em Fortaleza, se alguém me conhece em um minuto de conversa, já diz: “E tu é ‘di’ Crato?” Eu não acharia ruim a ironia, mas corrijo o erro geográfico: “Sô é di Juazeiro do Norte, cabra!”.
Relembrando que, até no inglês, para reafirmar minha teoria do "Tí", a palavra "teacher" é pronunciada como "Títchâr", não "Tchitchâr". 2 a 0 pro Cariri!
Saúdo, enfim, o grande artista nordestino, conhecido nacionalmente, Zé Ramalho, que em suas músicas canta a vida do sertanejo sem maquiar seu linguajar. Canta ele: “vida di gado, povo marcado, povo feliz”.
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Essa Copa...

terça-feira, 6 de julho de 2010


Ops! O mundo e a taça de sua Copa de cabeça pra baixo.

Essa Copa do Mundo na África já deu o que tinha que dar. Eu confiava na polêmica seleção brasileira de Dunga, discutida amplamente na mídia como duvidosa. Dunga foi vitorioso no Brasil, ganhou tudo o que tinha que ganhar antes da Copa. Mas logo na escalação teve lá seus erros e, infelizmente, não saímos hexacampeões. Um ponto positivo para Dunga nessa Copa? Peitou a TV Globo. E isso basta pra querer dizer que ele pensa.

O fato é que o Brasil, nessas duas últimas Copas, só conseguiu uma bi-eliminação nas quartas-de-finais. Amarguramos derrotas arquitetadas com maestria por carrascos carecas. Diga-se: Zidane em 2006 e Snejder em 2010. Nos momentos finais do segundo tempo, apelei para o Padim Ciço, mas deu no que deu. Triste ver uma derrota nas quartas, quando esperamos ver nossa seleção na final. Ainda por cima, desolado depois do fatídico jogo, tive que fazer uma baita prova de Imunologia.

Ainda abatido, como um bom torcedor brasileiro, restou-me torcer, fervorosamente, para uma possível derrota da Argentina pela Alemanha. Não esperava tanto. A cada gol dos alemães, um sorriso no rosto. E o abatimento pelo Brasil ter ido embora mais cedo da África se evaporou instantaneamente no momento em que vi Maradona com uma cara de tacho pela sua eliminação massacrante. Comemoremos esse fato histórico, pois, além de ver a Argentina levar de 4 - duplo sentido à parte -, pouparemos nossa memória de guardar a cena dos argentinos levantando a taça e, pior ainda, de ver a grotesca cena de Maradona nu por aí.

Essa Copa não teve brilho, teve muita zoada de vuvuzelas. Os craques se esconderam. A França e a Itália foram, igualmente, vergonhosas em campo. A arbitragem, muitas vezes, dava calafrio. E, por falar em coisas ruins da Copa, não esqueçamos Felipe Melo. Não falo apenas do primeiro gol contra que o Brasil fez em 80 anos de Copas do Mundo, mas de suas entradas imaturas e cruéis aos adversários, dignas de games de luta como Street Fighter. Fatos como esse mancham a imagem daquele futebol arte que o mundo já não sabe se ainda existe em alguma seleção desse planeta bola.

O que deve nos convencer é que o hexa pode ter mais graça na Copa de 2014, aqui.

PS: Essa foto é do baú...

Em 2006, entre amigos, amarguramos nossa eliminação pela França de Zidane... E em 2014?
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Relógios

quinta-feira, 26 de novembro de 2009


Meu relógio memorável que marcou época.

Já pensou que aquele relógio que você usava inseparavelmente é um forte indicador das fases de sua vida? Ao ver fotos tiradas há uns 10 anos, eu ainda criança - logicamente - e lá estava aquele relógio digital clássico comprado no Mercado Central de meu Juazeiro do Norte por 10 reais. E nas fotos, você nem lembrava bem da sua idade, mas lembrava que usava aquele relógio e até hoje se lembra de suas limitadas funções. 

O relógio, que naquele tempo dava as horas, hoje nos dá a idéia do que acontecia naquela época. O primeiro relógio é difícil de esquecer, assim como o primeiro arranhão quando a gente lixa ele na parede sem querer e... ‘Droga! Esse arranhão vai acompanhar meu relógio a cada hora que eu olhar pra ele!’. E lembremos também de quando decidimos trocar o relógio digital por aquele analógico, principalmente aqueles com ponteiros que apontam não para os números, e sim para os tracinhos que substituem os números. Acho que se trata de uma versão light e chic de relógios e é bastante difícil a pessoa se adequar aos primeiros momentos com ele pra dar a hora certa. 

Já imaginou, você andando na rua, com seu relógio analógico de tracinhos, aí vem uma garota e pergunta as horas. Você tem que ter na cabeça o espaço geográfico de onde estariam os números que estão substituídos pelos duvidosos tracinhos. ‘Só um momento, por favor’. Nesse momento você pensa primeiramente que tem que dar a hora certinha se for uma garota 'simpática' que mexeu com seu 'simpático' (trocadilho biológico infame!), ou melhor, que acelerou seu coração, e aí tem que dar a hora certa mesmo, apesar do momentâneo descontrole emocional. Aí vem o segundo pensamento: ‘esse ponteiro grande tá 15 ou 20 pras 4, se é que o ponteiro pequeno tá apontando mesmo pra 4 ou pra 5.’ Esse dilema, que está aliado ao nervosismo do momento, faz parte do pouco costume no manuseio do novo relógio. 

De repente você se lembra do relógio digital antigo e arranhado, que era só ler o número e pêi-búfo! Ou então você pensa em olhar o movimento do sol pra dar uma hora aproximada. É amigo, você está numa sinuca de bico. Em toda essa reflexão, que deve ter levado uns demorados cinco segundos até você decidir responder as possíveis horas, das duas uma: ou a garota vai ficar p da vida por ter tomado muito tempo de sua vida e sair dizendo um frio ‘obrigada’, ou ela vai achar você fofinho ao ficar todo embaraçado pela situação que ela mesma criou. Mesmo assim você arrisca: ‘3 horas e 45... opa! 15 pras 4 da tarde!’. Nessa hora, a garota pensa, antes de dizer um delicioso ‘obrigada’: ‘claro que é tarde, não precisava dizer tarará 4 da tarde, ele pensa que não sinto o tempo?’. E pronto. O encontro marcado acaba aí mesmo. 

O dono do relógio analógico, depois disso, tudo que ele quer saber é da certeza da informação dada, ansioso por achar um relógio público na praça – de preferência digital – que confirme sua suposição. Depois você abandona o traiçoeiro analógico de pontinhos, ainda comprado por uma pechincha no Mercado Central da querida cidade, e troca pelo almejado relógio sport digital acoplado a relógio analógico, e que mede até a temperatura ambiente e dá a hora de outros países, a venda no Mercado Livre, pela internet mesmo. 

Este novo relógio pode ter vida curta, mas pode imortalizar mais uma fase de sua vida, que geralmente é a vida universitária, e vai ser antecessor do futuro rolex que você deve ter quando ficar careta o bastante pra mostrar à sociedade quem você não queria ser quando crescer, só pra ganhar esse negócio idiota de status.
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Lógica da Verdade

segunda-feira, 26 de outubro de 2009




 Caro amigo, se um dia eu encontrar a verdade, me alerte pra eu parar de pensar em outra coisa. É que eu vou ficar tentando redescobrir minha idéia da lógica da verdade. Pois se eu passar um pouquinho do pensamento do que é verdade, eu vou perder a credibilidade de encontrar o que eu tava procurando. Vejo que isso vai ser difícil, porque se eu esmiuçar sobre um pensamento, vem outro pensamento e mais outro, desconstruindo e reconstruindo outra e mais outra reflexão. Quer saber? Esse negócio de verdade deixa a gente assim, meio que confuso, como todo pensamento que ainda segue uma ordem lógica. Se eu chegar na barreira de descobrir a verdade, aliás, nem ficarei mais satisfeito... Só por que agora me veio à mente que eu seria único no mundo, e isso seria ignorância demais. Prefiro então continuar como todo louco que busca o sentido das coisas. Preciso mesmo é sentir o colo quente de uma garota, beijá-la por quinze minutos, cheirar o cangote dela, encostar meu queixo no seu ombro e continuar de olhos fechados, sentindo sua respiração com seu corpo colado ao meu peito. Ela me diria que me ama. E eu saberia que essa parte seria bobagem. Amor assim já tive, mas perdi como o sopro dessas palavras na atmosfera daquele momento. Esse momento, que certamente não é eterno, é eternizado. É de verdade. É lógico, como deveria ser a verdade. Mas nem aí encontro a lógica da verdade. Por que depois pode acontecer outro clima transcendental com outra garota que vai me dizer que me ama da boca pra fora e depois abusa de mim por eu ter um monstrinho dentro de mim. E tome curativos no coração... Bem, acho que estou chegando a uma conclusão! De verdade, a lógica seria a garota que dei meu amor me amar e a gente se agüentar em nossos monstros pessoais. E agora vou parar de pensar, por que se não vem outro pensamento e mais outro e outro e ademais fico por aqui, só.
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Sensações

quinta-feira, 21 de maio de 2009



As sensações. O que se quer além de sensações? Viajar o mundo e registrar tudo. Mas antes respirando fundo a cada época de passagem, a cada légua de paisagem. Reviver momentos de alguns belos filmes, pra sentir na pele o que a ficção nos faz sentir superficialmente. Viver os momentos que você quer sentir por que outra pessoa já viveu. Nada de inveja. É a sensação que se quer ter por pensar que o outro a teve da mesma maneira que se pensa que se sentirá. Ou vai dizer que quem mora em Paris faz tempo vai ter a mesma sensação que você olhando para a Eiffel? Ou então vai dizer que o gosto de um sorvete a dois no calor tem o mesmo gosto que provar um picolé de pistache sozinho no inverno? O que se quer ter são apenas sensações. A sensação de sentir a brisa te tocar caminhando contra ela. A de sentar num banco de uma praça e observar o movimento ou a falta dele. A de deitar numa cama fria depois de um dia cheio. A de se pegar distraído cantarolando uma música que não sai da cabeça. A de contar uma piada e ver as pessoas rirem. A de fazer uma surpresa a quem se quer com uma rosa. A de um segundo antes de tocar um lábio tão esperado. Ah, sensações!
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Cinema das 6

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009


Certamente você também já provou o gosto de um cinema sessão das 6 em dia de semana. Sozinho? Certo, todos têm que ter esse tempo sozinho. Só pra depois você comparar o gostinho do mesmo cinema com uma companhia. Já que chegamos atrasados, podemos nos sentar naqueles dois lugares vagos ali na frente, que dá uma dorzinha de torcicolo. Isso quando você esteve só. Por que com a companhia ao lado, você pode apoiar a cabeça no ombro dela. Sentir o cheiro suave da nuca. Sentir o acariciar do cabelo. Sentir desejo. Calor humano. Quiçá um beijo. E pensará o quanto está sendo bom aquele momento. Falta de prática? Sem timidez. Pega na mão. Acaricia. Espera por resposta. Polegar em movimentos circulares no pulso. Indicador pincelando o dorso da mão. Os dedos se entrelaçaram. Ufa! Alguém compartilha um sentimento recíproco. Passa outro filme na cabeça. Como nos conhecemos? O que nos trouxe até aqui? Posso te dizer o que sempre quis? Sabes? Melhor mesmo é curtir o momento. A gente pode ter todo um tempo pela frente para demonstrar sentimento. Beijo na bochecha. A face vira lentamente pra captar a luz dos olhos. Magnetismo. Beijo sentimental. Viagem às estrelas. Só dois corações sabem descrever em pulsações vibrantes e compassadas o que se sente. Sim, mas e o filme, o enredo? Desprezemos esta fita e gravemos nossa própria produção nos nossos cinemas sentimentais particulares.
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Evadir-se

domingo, 25 de janeiro de 2009



Ver o mundo de outro ângulo. Por que não? Nem que seja literalmente. Certo dia estava tomando de conta do mercadinho do meu pai. Começou a chover. Era uma chuva de verão, passageira, no final da tarde, num dia de semana. Não demorou muito pra que alguns pedestres se aglomerassem na calçada guardada da chuva. Uma garota me chamou a atenção. Ela parecia cansada. Ficou agachada no batente, assim de cócoras mesmo. Sua roupa molhada. Sua pele talvez macia e gelada. Secando. Apoiou o queixo nas mãos. Cotovelos nos joelhos. Parecia pensativa. O que se passava nos seus pensamentos? Via o tempo passar. A chuva diminuir até uma fina garoa. O sol reaparecer sem aquecer o gelo. Anota um refrigerante, por favor! Ok. Ela foi embora. Ou melhor, em má hora. Nem percebi. Evaporou como o espelho d'água que havia se formado no asfalto. Instantaneamente. Incrível. Eu nasci nessa casa. Sempre pensei que conhecia tudo daqui. Todos as horas. Todas as formalidades do tempo. Mas eu via tudo de pé. Impaciente. Com sol. Ou com muita chuva. Mas sem transição. Sem sentir na pele. Sem pensar muito. Sem sentir. Sem me deixar evadir. Enfim, sem ver o mundo de outro ângulo.
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